Elogiar o esforço, não o talento
Há uma tentação natural, nos pais que acompanham a aprendizagem musical de um filho, para ver talento onde há trabalho. Uma nota bem tirada é celebrada como sinal de dom. Uma peça acabada é comentada como "nasceste para isto". A intenção é boa. O efeito, muitas vezes, é o inverso do desejado.
A ciência da motivação, com trabalho bem estabelecido de Carol Dweck e outros, é consistente há décadas neste ponto: elogios ao talento criam pressão de manutenção; elogios ao esforço criam curiosidade e resiliência. Uma criança que ouve "és tão talentoso" começa a estudar para confirmar o rótulo, e a evitar o que a possa desmentir. Uma criança que ouve "trabalhaste bem essa parte" percebe que o resultado veio de algo que ela controla, e vai querer repetir.
Este artigo é um guia prático da linguagem que motiva um filho a estudar música, e daquela que, sem intenção, o trava.
Frases que ajudam · frases que travam
Não é sobre nunca elogiar. É sobre elogiar o que a criança controla.
| Ajudam | Travam |
|---|---|
| "Estás a trabalhar bem essa parte." | "Tocas tão bem quando queres." |
| "Gosto de te ouvir a tentar." | "Só falta esforçares-te." |
| "Ontem já não sabias isto." | "Já devias saber isto." |
| "Como te sentiste hoje a tocar?" | "Correu bem?" |
| "O que gostaste mais desta aula?" | "O que aprendeste?" |
Vale a pena olhar para cada linha. As da esquerda focam-se em processo (esforço, tentativa, evolução, experiência subjectiva). As da direita focam-se em resultado ou em julgamento (quando queres, esforça-te, já devias, correu bem, aprendeste). O primeiro grupo abre a conversa. O segundo fecha.
A regra dos 3 : 1
Para cada correcção ou observação crítica que fizeres em casa, procurar fazer três comentários positivos ou neutros. É o rácio identificado em vários estudos de dinâmica familiar e educativa como sendo o que preserva a relação e mantém a motivação intacta.
Não se trata de mentir. Trata-se de dosar. Uma criança que ouve corrigir mais do que ouve reconhecer perde a energia interna para continuar. Uma criança que ouve reconhecer mais do que ouve corrigir mantém o interesse, e absorve melhor as correcções raras que aparecem.
Reparem no vosso próprio ritmo em casa durante uma semana. Se sentirem que estão a corrigir mais do que a reconhecer, o problema não está na criança. Está no rácio.
Ser público em casa
Um dos gestos mais poderosos, e mais subestimados, é pedir ao filho para tocar em casa. Sem contexto de exame, sem preparação especial, sem pressão.
- Para os avós, ao telefone, no final da conversa de domingo.
- Para o irmão mais novo, antes de dormir.
- Para os amigos dos pais que vêm jantar.
- Como música de fundo enquanto se prepara o jantar.
Isto transforma "estudo" em "partilha". Muda a natureza do acto. O filho deixa de tocar por dever e começa a tocar porque alguém quer ouvir. E esse alguém não é o professor a avaliar.
Ir a concertos
Assistir a concertos, mesmo quando não é o filho a tocar, é combustível pedagógico dos mais eficazes.
- Concertos de outros alunos da Academia, ou de qualquer academia.
- Concertos gratuitos no bairro, na cidade, ou pequenas salas.
- Concertos dos próprios professores, quando houver.
- Vídeos escolhidos no YouTube. Escolhidos, não algoritmo.
O que assistir a concertos faz é criar referências. Uma criança que ouviu, ao vivo, um adulto tocar tem uma imagem futura de si própria. Uma criança que só toca em casa não tem para onde crescer.
O que evitar dizer
Três frases aparecem naturalmente na boca dos pais e travam a motivação de forma quase imediata.
"És um talento nato." Coloca a criança na posição de ter de provar, para sempre, que a frase é verdadeira. Ao primeiro erro difícil, sente que perdeu o que a definia. Prefere-se: "trabalhas bem, sente-se".
"Só falta um bocadinho de esforço." Aparece com intenção de motivar, mas soa a acusação. Prefere-se: "vejo que já estás mais perto do que a semana passada".
"Não estás a esforçar-te." Julga sem descrever. Prefere-se: "hoje vejo-te mais desconcentrado, aconteceu alguma coisa?".
Nenhuma destas substituições é retórica. São reformulações que colocam a criança no lugar de agente, não no lugar de julgado.
Cuidado com o Instagram
Ver, todas as semanas, crianças de sete anos a tocar Chopin em vídeos virais destrói motivação em qualquer criança normal. A conversa em casa deve ser sobre o percurso da vossa filha ou do vosso filho, comparado consigo próprio, não sobre a bitola inventada do "prodígio no ecrã".
Se ficarem impressionados com um vídeo que apareceu, guardem para vocês. Se comentarem em casa "olha o que ele já toca com sete anos", a mensagem que o vosso filho ouve é: "não sou suficiente".
O que resulta melhor é comparar o filho consigo próprio, três meses atrás. Foi-se para longe.
Conversas curtas, repetidas, ao longo do tempo
A motivação não se constrói em discursos. Constrói-se em micro-conversas, todos os dias, muitas ao longo do ano. Uma pergunta curta ao jantar. Uma observação enquanto se põe a mesa. Um comentário no carro, a caminho da aula.
Estes pequenos actos são o que, no fim do ano, faz a diferença entre uma criança motivada e uma criança apática. Não são os grandes discursos. São as centenas de trocas pequenas.
O que fica desta conversa
A linguagem que os pais usam em casa é infra-estrutura pedagógica. Vale tanto como a rotina de estudo, e às vezes mais. Uma criança em rotina má, com linguagem certa, aguenta. Uma criança em rotina boa, com linguagem errada, esgota-se.
Elogiem o esforço. Reparem no que ela controla. Perguntem sem examinar. Sejam público antes de serem crítica. E, sempre que possível, tirem as comparações da conversa.
O talento é uma palavra bonita, mas pouco útil. O trabalho é uma palavra sem brilho, mas leva mais longe.
Gabriela Fernandes é pianista, formadora e co-fundadora d'Os Músicos. Trabalha educação musical na infância e adolescência, e forma pais e músicos noutras academias. Mais em gabrielafernandes.pt.
Gabriela Fernandes
Pianista, formadora e cofundadora d'Os Músicos, Academia de Música de Miraflores. Trabalha educação musical na infância e adolescência e forma pais, docentes e músicos em academias e escolas em Portugal.